Toca a campainha.
“Porra, quem será?” - pensa Kiko, jogado no sofá. São 20h e 17min, e ele tinha cochilado enquanto assistia à MTV. Agora, vestindo somente uma samba-canção, Kiko levanta do sofá com dificuldade e caminha devagar até a porta, cabelos desengrenhados e olhos inchados.
Abre a porta.
- Cris? A gente tinha combinado algo pra hoje?
- Não, eu resolvi dar uma passada aqui, sem avisar mesmo.
- Quer entrar? Só não repara que eu…
- Não, não precisa, não vou demorar…
- Ok, diga - fala Kiko, ainda um tanto moribundo, mas ainda sim reparando a roupa de
festa que Cris usava.
- Espero que tu compreenda… Eu tô indo pro Nordeste hoje à noite.
Kiko franze a testa, sacode a cabeça:
- Bom, tudo bem. Quem sou eu pra impedir, né… Só que tu tá me avisando muito em cima
da hora, né?
- É, um pouco…
- Quando tu volta, amor?
- Eu vou morar lá.
Kiko ri.
- Tá, sei…
- Eu tô falando sério, Kiko. Eu vou me mudar pra lá.
- Como assim, se mudar pra lá? - pergunta Kiko, agora com uma expressão séria.
- É que eu conheci esse cara…
- Cara? - Kiko arregala os olhos - Que cara?
- …ele é filho dum amigo do meu pai e tal, eles são donos da maior plantação de
mandioca lá do Nordeste e …
- E eu com isso? O que isso tem a ver com o nosso namoro? - pergunta, angustiado, Kiko.
- Eu tô apaixonada por ele.
Kiko respira ofegante. Fica estático por alguns segundos.
- Desculpe ter que te dizer dessa maneira… Mas é melhor assim.
Kiko põe as mãos na cabeça, respira fundo.
- Pra isso que tu veio aqui? Pra dizer que vai acabar o namoro de três anos comigo pra ir
morar no Nordeste com o magnata do aipim?
- Olha…
- Pra isso que tu veio?
- É… E também pra pegar aquele disco do Smiths que eu tinha te emprestado mês
passado, lembra?
Kiko olha pra ela com um ar incrédulo.
- Pode deixar que eu pego, eu sei onde tu guarda - diz Cris, atravessando porta adentro.
Kiko continua parado na porta. Ele olha para fora e vê que, do outro lado da rua, está um Mustang conversível. Dentro dele, um sujeito de cabelo lambido, usando óculos escuros e
com o rádio ligado em um volume respeitável. Ele encara o rapaz do carro por alguns
segundos. A música acaba. Cris volta com o disco do Smiths nas mãos.
- Olha, desculpe por tudo, mas eu sei que tu entende…
- Sim, claro que eu entendo…
- Não fica triste, Kiko, tu te acostuma - diz ela, beijando a testa dele - Logo vai aparecer
outra na tua vida, eu tenho certeza.
Uma buzinada interrompe a conversa. É o cara do Mustang, do outro lado da rua, que
agora está ficando impaciente. Começa outra música no rádio.
- Tenho que ir! Eu te escrevo! - diz Cris, já atravessando a rua em direção ao conversível estacionado - Ai, eu adoro essa música! Should I stay or should I go-ô! Aumenta o volume!
O volume vai ao máximo, o carro arranca com Cris dentro, deixando Kiko parado na porta. Fica olhando por mais alguns segundos o lugar onde estava o Mustang, e então,
finalmente, entra em casa. Senta-se no sofá, cobre o rosto com as mãos.
“Quer dizer que a única guria que eu realmente gostei acaba de me trocar por um
plantador de aipins, depois de três anos juntos? A única guria pra quem eu já disse ‘eu te
amo’ sem estar mentindo me larga desse jeito? Quer saber? Que vá se foder essa merda
de vida!”
Levantou-se, vestiu a primeira camiseta que viu pela frente, pôs uma calça jeans e pegou a chave do carro, mais algum dinheiro. Dirigiu pelo centro da cidade, até avistar um barzinho quase cheio. Estacionou o carro por perto, pegou uma mesa e pediu o cardápio ao garçom. Queria beber o negócio mais forte que encontrasse, não importa se capotasse o carro na volta pra casa. O garçom traz o cardápio, e Kiko abre direto nas bebidas. Passa os olhos sobre os nomes e preços. Eis que olha de relançe para a página ao lado. “PETISCOS”, é o que há no topo. E então ele vê. Estava ali, entre a casquinha de siri e os bolinhos de bacalhau: Bolinhos de aipim. Kiko olha com desgosto para a palavra aipim impressa em azul no menu. Ele pensa, morde com raiva seus lábios e então chama o garçom.
- Me vê uma porção de bolinhos de aipim.
O garçom anota o pedido e sai. Kiko olha para as mesas em volta. Vê um casal
apaixonado numa delas. Começa a roer as unhas, ele que desde os 17 não fazia mais
isso… Olha pro relógio, já são quase nove. A essa hora, sabe-se lá onde estaria a Cris e o
cara do aipim…
“Puta que pariu, isso não pode estar acontecendo. Eu amava aquela guria, será possível?” - Kiko sua muito, e suas mãos tremem, indo mais uma vez de encontro ao rosto, cobrindo-o.
- Seus bolinhos - fala o garçom, deixando o prato à sua frente.
Kiko abre os olhos. À sua frente, estava uma porção de bolinhos de aipim. Devia haver uns oito ou dez deles ali. Uns mais torrados, outros menos. Mais uma vez, ele cobre o rosto com as mãos e depois torna a fitar os bolinhos. Kiko pega um deles e levanta-o à altura de seus olhos. Lança um olhar patético ao bolinho de aipim que repousa em seus dedos. O bolinho, por sua vez, permanece impassível. Kiko pega o paliteiro com a outra mão e tira um palito, sem tirar os olhos do bolinho. Ele então encosta a ponta do palito no petisco de aipim, e, bem devagar, empurra-o para dentro do bolinho. A ponta surge com queijo derretido, do outro lado. Kiko pega outro palito e repete o ritual, e faz de novo, e de novo, e mais uma vez, até que o bolinho está impiedosamente impalado por todos os lados. Então Kiko chama o garçom, e pede um garfo.
O garfo chega. Kiko pega o garfo com a mão direita e olha para os bolinhos
remanescentes. Empunhando o garfo com uma faca, ele atravessa um dos bolinhos do
prato, lentamente. E faz de novo, e de novo, mais uma vez, e começa a aumentar a
velocidade e a força dos golpes. Os bolinhos vão sendo massacrados pela pontas do garfo, que entram e saem com uma força descomunal. As pessoas ao redor começam a
cochichar e a observar o sujeito que destruía a porção de bolinhos de aipim. E Kiko
chegava a tirar lascas do prato com seus golpes, enquanto os bolinhos viravam purê. Um dos garçons se aproxima timidamente:
- Algum problema, senhor?
- Nenhum problema - responde Kiko, sem parar de golpear os bolinhos.
- Posso ajudá-lo em algo?
- Claro que pode, pega um garfo lá e vem me ajudar.
O garçom sai de perto, e conversa com um homem no caixa. O homem deixa o caixa e
aproxima-se do sujeito que estava quase quebrando um prato a golpes de garfo. A essa
altura, todos os clientes do bar centravam suas atenções em Kiko.
- Boa noite, senhor, eu sou o gerente. Algum problema com os bolinhos?
Kiko pára por um instante e olha para o gerente.
- Sim, há um problema. Eu ODEIO aipim.
- Bom, mas e por que o senhor…
Kiko nem ouve o gerente. Apenas pega um dos bolinhos mais inteiros, larga no chão e
pula com os dois pés em cima uma, duas, três vezes, berrando “Aipim filha da puta, eu
odeio essa porra!”. O gerente recua e faz sinal para um dos garçons ligar para a polícia,
enquanto Kiko esmaga o aipim contra o solo, chorando compulsivamente. As pessoas
olham para ele com uma expressão assustada. O gerente procura sobre a mesa de Kiko
qualquer tipo de bebida, mas não acha absolutamente nada. Então Kiko pega com a mão
direita uma porção da pasta - que antes fora uma porção de bolinhos de aipim - do prato e cambaleia até o meio da rua. As pessoas acompanham seus movimentos de boca fechada e com olhos arregalados.
- Meu Deus do céu - berra Kiko, olhando para o céu e soluçando, com um punhado de
aipim esmagado na mão direita, que está levantada sobre a cabeça - o que que essa bosta
de aipim tem a mais do que eu?
O gerente pede para que os outros clientes permaneçam sentados. E Kiko no meio da rua, com o rosto encharcado de lágrimas, gritando:
- Hein, me responde, merda! O que essa porra tem que eu não tenho? Hein, responde
agora!
Ouve-se um estrondo violento. Abre-se um clarão no céu. E antes que qualquer um
pudesse piscar, surge um meteorito de 600 quilos, que atinge Kiko em cheio, cujo corpo
fica completamente esmagado e coberto pela imensa rocha.
Silêncio.
Todos boquiabertos.
O homem de bigode da mesa 2 levanta-se e fala alto:
- Mantenham a calma, eu sou médico.